Imitação x Identidade: como se inspirar em seus ídolos e construir a sua própria identidade musical.

John Coltrane, Miles Davis, Jimi Hendrix, Jaco Pastorius, Ella Fitzgerald, Bill Evans…

Basta uma nota e já sabemos qual destes artistas estamos ouvindo, sem nenhum esforço!

Mas por que conseguimos fazer isso sem a menor dificuldade? Por que não precisamos de muito para saber quem está tocando?

A identidade musical de cada um destes artistas é muito característica. Timbre, frases, composições…tudo é muito singular e único! Isto os torna uma inspiração para nós! Nos faz querer entendê-los, descobrir o que pensam, por que escolheram certas notas e como conseguiram aquele timbre característico!

Para chegar a estas respostas fazemos o que? Transcrição e imitação!

Mas como imitar seus ídolos sem perder sua própria identidade musical?

Aprendendo com os melhores

Muitos músicos têm medo de transcrever solos, frases, licks ou seja lá o que for, e acabar soando parecido com seu ídolo. Parece que estão copiando e só, não possuindo uma sonoridade própria.

Acreditam que este processo de transcrição, que é muito comum para nós músicos, pode acabar atrapalhando a construção de sua identidade. Em contextos não musicais, essa prática de imitação/ inspiração também é muito comum.

E será que isso é um problema?

Kobe Bryant, um dos maiores jogadores da história da NBA, disse publicamente que Michael Jordan sempre foi uma de suas maiores inspirações. Quando percebeu que seria um atleta baixo para os padrões da NBA, Kobe estudou os movimentos de Jordan para aprender como lidar com jogadores maiores do que ele.

Não somente imitou seus movimentos como chegou a perguntar para M.J., durante uma partida entre o Bulls de Jordan e o Lakers de Bryant, quais movimentos ele fazia para se livrar da defesa numa determinada situação de jogo – Assista aqui sobre Kobe e Jordan.

Será que Kobe Bryant não conseguiu seu lugar no história do basquete mundial?

Sua carreira pode ser diminuída ou menosprezada por ter se inspirado em um grande atleta?

Eu e muita gente, mas muita gente mesmo, acreditamos que não, de jeito nenhum!

Imitação x identidade na música

Será que no âmbito musical é diferente?

Paul McCartney já confessou: “Eu imitei Buddy Holly, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Elvis. Todos nós fizemos isso.”

David Bowie, que é considerado um dos músicos mais inovadores e influentes de todos os tempos disse o seguinte: “A única arte que estudarei é aquela que contém o que eu possa roubar”.

Como já abordei anteriormente no blog – neste post – tirar solos (ou levadas, voicings, melodias, sequência de acordes…) é uma parte essencial do estudo de música. A transcrição é uma das ferramentas mais importantes para se aprender a improvisar.

Pat Metheny disse que “(…) a transcrição é um caminho para momentaneamente entrar na mente de um grande músico e encontrar os tipos de processos cognitivos que ele usa para se tornar quem ele é como músico.”

A meu ver, transcrever (ou roubar idéias musicais) é como pedir um conselho para alguém mais experiente. É entrar na mente de um grande músico e entender como ele usa certas ferramentas musicais. Assim você acaba tendo uma grande aula sobre como proceder em determinadas situações.

Fique tranquilo e imite! 

Termino este post com mais duas citações que resumem minha opinião sobre a imitação, ou furto, dentro da música.

“Roube qualquer coisa que ressoe em você, que inspire ou abasteça sua imaginação. Devore filme antigos, filmes novos, música, livros, pinturas, fotografias, poemas, sonhos, conversas aleatórias, arquitetura, pontes, sinais de rua, árvores, nuvens, bacias hidrográficas, luz e sombras. Para roubar, selecione apenas as coisas que falam diretamente à sua alma. Se você assim fizer, seu trabalho (e furto) será autêntico.” – Jim Jarmusch

“Comece copiando o que você ama. Copie, copie, copie, copie. Ao final da cópia, você encontrará a si mesmo” – Yohji Yamamoto

Gostou do post? Ainda com receio de não ser único?

Comente no texto!


2 Comments

  1. Muito interessante seu texto, Daniel; a propósito no ateliê de pintura que é minha área artística, faço essa mesma reflexão com alunos, a leitura de uma obra de arte de autor reconhecido e admirado é como tomar este autor como um professor, como vc diz, estudar o jeito dele, para saber como chegou àquele resultado, mas faço questão de dar o crédito, além da questão do direito autoral, neste caso o nome do autor é escrito no verso do trabalho estudado.
    Um grande artista pré renascentista, Giotto nos diz: “aprenda com a natureza, depois faça como vc quiser”, ele era um pastor de ovelhas e enquanto pastoreava aprendia a desenhar, ou seja, imite e depois…

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